sábado, 14 de novembro de 2009

IV - Um olhar sobre a sociedade

Nos últimos encontros reflectimos sobre a nossa identidade enquanto pessoas. Vimos que a identidade da pessoa está em permanente construção e que vários são os factores que concorrem para a construção da identidade. Neste contexto hoje vamos olhar para a realidade que nos rodeia, na qual vivemos e estamos inseridos. Focamos apenas três questões mas muitas outras poderiam ser abordadas.
Aldeia Global Vivemos na chamada ‘aldeia global’ em que as situações, os dramas e as alegrias do mundo nos entram pelos olhos dentro quando estamos no sofá a descansar, quando estamos no trabalho ou quando vamos na rua. Entram-nos nos olhos pelos meios de comunicação em massa: televisão, internet, jornais, rádio, entre outros. O nosso olhar habitua-se a ver o que quer ver e o que não quer; os nossos ouvidos escutam o que querem e o que não querem. Vemos e ouvimos e nem paramos para pensar sobre isso. Os meios de comunicação podem passar de uma imagem de profunda pobreza em África a um desfile de moda em Paris numa fracção de segundos. Entram-nos as imagens sem contexto (por vezes, com texto truncado, preconceituoso e pobre) e nós habituamo-nos a vê-las sem fazer distinção. O drama da pobreza em África ou o desfile de moda em Paris produzem o mesmo efeito em nós sendo situações completamente diferentes. Com este processo tornamo-nos indiferentes porque tudo parece estar tão perto e tão longe; tudo vem e vai a uma velocidade estonteante. Somos bombardeados com informação e nem sequer temos tempo para a formatar. Tantas vezes, a indiferença perante as situações é transportada do virtual para o real – parece-nos a mesma coisa!
A sociedade de consumo Vivemos em plena sociedade de consumo produzida e perpetuada pela maior parte dos meios de comunicação em massa. Grande parte dos meios de comunicação está nas mãos de grandes grupos económicos que apenas pretendem aumentar o lucro. Assim, importa ter dinheiro a qualquer custo para poder ‘reinar’ nesta realidade que cria desejos e a sua satisfação continuamente numa situação de eterno retorno na lógica do desejo e da satisfação. Diante deste panorama cresce o número de excluídos, de dominados e subjugados pelo sistema que entram em desanimo e em depressão.
Política (bem público) e o futebol A política gira dentro da ‘sociedade de consumo’ e da ‘aldeia global’, como em tudo, com as vantagens e desvantagens inerentes. A política como serviço do bem público, muitas vezes, fica de lado e é dominada pela corrupção – pelo serviço de alguns. Isto acontece porque as pessoas (que constituem a sociedade) se demitem de reflectir sobre as acções dos seus políticos e de exigir mais e melhor serviço público. Portugal vive em crise desde há muito tempo porque os seus cidadãos se demitem de se inscrever (José Gil) nos actos da comunidade. Crise esta que dentro da ‘aldeia global’ se atira para a crise mundial. Nós não temos culpa! Limitamo-nos a reagir e nunca a agir no tempo oportuno. Os cidadãos - que são os habitantes de um país – são os responsáveis pelo andamento (ou não) desse mesmo país. Os portugueses demitiram-se de olhar para o seu país; demitiram-se de discutir o que é fundamental em política de investimentos, de mercado de trabalho, de economia e finanças e digladiam-se em questões marginais. Basta ver, neste contexto, quais são as prioridades do nosso governo (legalizar o casamento gay). E as questões fundamentais? Em Portugal existem 3 ou 4 jornais diários desportivos (futebol) que são dos mais lidos (a par de outras tantas revistas cor de rosa). O futebol discute-se em qualquer canto – em certos lugares com discussões bem acesas e azedas. Se os portugueses lessem e discutissem com tanto entusiasmo as questões politicas e económicas do nosso país como isto seria diferente. Confesso que gosto de futebol e do meu Benfica. Mas poderá o futebol ocupar o lugar central do meu dia, das minhas discussões e dos meus interesses? Para mim não!
Palavra de Deus "Jesus percorria as cidades e as aldeias, ensinando nas sinagogas, proclamando o Evangelho do Reino e curando todas as enfermidades e doenças. Contemplando a multidão, encheu-se de compaixão por ela, pois estava cansada e abatida, como ovelhas sem pastor. - Disse, então, aos seus discípulos: «A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, portanto, ao Senhor da messe para que envie trabalhadores para a sua messe» " (Mt 9, 35-38).
"Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles devia ser considerado o maior. Jesus disse-lhes: «Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. 26Convosco, não deve ser assim; o que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve. Vós sois os que permaneceram sempre junto de mim nas minhas provações" (Lc 22, 24-28).
Questões: Esta descrição corresponde à realidade? Já tinhas pensado sobre isto? Apresenta a tua visão da realidade fazendo o contraponto com os dois textos da Palavra de Deus (mínimo de 20 linhas).
Próximo encontro no dia 28 de Novembro às 21h;
[Texto realizado para o encontro de formação para a Celebração do Sacramento da Confirmação - Melgaço]

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Felizes os que andam no Senhor

Deus que é amor (1 Jo, 8), criou-nos para o amor e para a felicidade. Deus quer-nos felizes porque nos ama. A felicidade é o nosso objectivo de vida. Ninguém em perfeita saúde mental quer ser infeliz. A felicidade é posta de parte pelo pecado, pela ausência de Deus. Jesus encarnou, sofreu a paixão, morreu e ressuscitou para nos oferecer a possibilidade de sermos felizes. "Na sua carne crucificada, a liberdade de Deus e a liberdade do ser humano juntaram-se definitivamente num pacto indissolúvel, válido para sempre. Também o pecado do ser humano ficou expiado, uma vez por todas, pelo Filho de Deus" [Bento XVI, Sacramento da Caridade, nº 9]. A ressurreição orienta e sustenta o nosso desejo de felicidade. A felicidade é dom, é dádiva e cabe a cada um de nós acolhê-la ou não em liberdade. "A felicidade faz parte da nossa fé. (…) Se a fé é um compromisso com Deus, a felicidade é também o seu fruto" [Marcovits, 2008, p.5]. A Sagrada Escritura tem muitas expressões começadas por ‘felizes’ – cerca de uma centena. Alguns exemplos:
"Felizes os teus homens, felizes os teus servos que estão sempre contigo e ouvem a tua sabedoria!" (1 Rs 10,8). "Feliz aquele a quem é perdoada a culpa e absolvido o pecado. Feliz o homem a quem o SENHOR não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano" (Sl 32,1-2). "Feliz o homem que confia no SENHOR" (Sl 40,5). "Felizes os que crêem sem terem visto!" (Jo 20,29). "Feliz o homem que resiste à tentação, porque, depois de ter sido provado, receberá a coroa da vida que o Senhor prometeu aos que o amam" (Tg 1-12).
São pequenas frases, são "portas laterais da vida cristã" [Marcovits, 2008, p.6+ mas que devem ilustrar e animar a nossa vida de crentes. "São marcas de referência concretas, simples, humanas, frequentemente optimistas sobre o caminho que conduz a Deus e à felicidade de sermos todos irmãos e irmãs. São uma arte de viver" [Marcovits, 2008, p.6]. Neste contexto o Sermão da Montanha ou o Sermão das Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12; Lc 6, 20-23) são as mais conhecidas. Elas são como que um resumo das Escrituras. Como diz o Catecismo da Igreja Católica "as bem-aventuranças estão no coração da pregação de Jesus" (CIC nº 1716). É a nova Lei, o novo código ético que Jesus entrega aos seus discípulos e que os discípulos entregaram aos nossos pais de geração em geração e que são o tesouro, a herança que nos cabe guardar, preservar e transmitir às novas gerações.
"Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu" (Mt 5,3)
Jesus declara que o Reino do Céu será dos pobres. Naquela época, como na nossa, proclamava-se bem-aventurada a riqueza e não a pobreza. No entanto cresce no seio do judaísmo a convicção de que os pobres (anawim) que vivem sob o domínio dos poderosos se viverem honestamente e praticarem a justiça serão recompensados por Deus. "A pobreza bem-aventurada deve ser acompanhada e determinada pela simplicidade de coração, pela convicção profunda da necessidade que o homem (o ser humano) tem de Deus, pela integridade de vida, pela abertura aos outros" [Comentários à Bíblia Litúrgica, p. 804]. A pobreza interior é condição para entrar no Reino porque o pobre abre o coração à dádiva, encontra-se disponível para receber.
Felizes os que choram porque serão consolados (Mt 5,4)
Deve entender-se esta bem-aventurança à luz da consolação trazida pelo Messias Salvador, por Jesus. Ele vem consolar todo o sofrimento humano. Vem resgatar-nos do pecado (entenda-se como tudo o que nos afasta de Deus) – causa do sofrimento. Jesus venceu o pecado, a dor, a morte, particularmente, no momento da Ressurreição. "Consolai, consolai o meu povo, é o vosso Deus quem o diz" (Is 40,1). O nosso Deus é um Deus misericordioso disposto a enxugar todas as nossas lágrimas - na tribulação, no choro, a esperança e a confiança da presença amorosa de Deus. Em jeito de conclusão: a felicidade (verdadeira) vem do amor que Deus deposita em cada um de nós ao qual correspondemos. Como Catequistas somos transmissores, anunciadores e testemunhas do amor de Deus. O nosso optimismo, a nossa confiança são fruto da nossa fé e da nossa confiança amorosa em Deus.
Bibliografia: Bíblia Sagrada; Catecismo da Igreja Católica; Bento XVI, Sacramento da Caridade - Exortação Apostólica pós-sinodal, Ed. Paulinas (2007); As pequenas Bem-aventuranças, Paul-Dominique Marcovits, Paulus Editora (2008);
[Texto realizado para Encontro de Espiritualidade com Catequistas – Arcos de Valdevez]

sábado, 31 de outubro de 2009

III - Identidade: sentimentos e percepções

[O encontro começa com seis imagens (que expressem sentimentos) das quais os participantes têm que escolher uma; depois fazem os grupos respectivos e apresentam as razões da escolha – elegem um porta voz e apresentam as suas conclusões em plenário.) A construção da identidade é um processo contínuo. Vamos conhecendo a pessoa (a sua identidade) pelo que faz e pelo que manifesta. Os sentimentos mostram ou demonstram como a pessoa reage, no fundo, o que a pessoa é. Podemos dizer que os sentimentos são parte integrante e importante da pessoa; através dos quais se mostra (se revela). Falamos em sentimentos e emoções ao que se refere à forma de sentir tristeza, dor, alegria, paixão, amor, ódio, medo, coragem (entre muitos outros); ou à maneira de receber gestos de carinho, afecto, ternura - ou ao modo de agir e reagir ao relacionamento com os outros; ou ainda ao querer bem ou mal a nós próprios e aos outros. Os nossos sentimentos podem comparar-se, no seu conjunto, ao nosso ‘código genético’ ou às nossas ‘impressões digitais’. Em cada um de nós existem marcas que nos identificam e distinguem; situações e acções que, muitas vezes, não podemos expressar por palavras, como por exemplo, o chorar, o sorrir, o beijar … (é a dita linguagem dos sentimentos). Mas os sentimentos são genéticos? Isto é, não podemos fazer nada para os modificar? A resposta é: sim podemos! Em muitos casos devemos! Os nossos sentimentos são fruto ou consequência de muitas situações do presente e do passado da nossa existência; nomeadamente da nossa infância (0 a 5 anos) por causa da capacidade que a criança tem para imitar e assimilar o que fazem os adultos. O ambiente social, familiar, religioso, escolar, pode ter muita influência no comportamento das pessoas. Mas, depois, vamos crescendo e amadurecendo a nossa forma de ser, de agir e de sentir. Isto é, nós podemos identificar/conhecer a nossa forma de sentir, de agir e paulatinamente corrigir ou moderar essas situações. Muitas vezes, a descoberta dos sentimentos (como a amizade ou o amor geralmente associado à paixão) estão envoltos no sofrimento porque as experiências defraudaram as expectativas (não corresponderam ao sonhado). Toda a ferida (o corte) tem que ser tratada (curada) o mesmo se passa de forma análoga relativamente aos sentimentos. Importa ‘curar’ e não ficar refém das cicatrizes. Não nos podemos excluir de sentir (não podemos evitar de amar). Deixar o coração fechado e amargurado é um erro terrível. O ser humano tem que ser livre para os sentimentos: para o amor, para a amizade, etc. Por exemplo, o tempo de namoro é uma fase de conhecimento pessoal na relação com o outro. Tempo para conhecer as qualidades e os defeitos, para descobrir se os ideais e projectos de vida se cruzam e correspondem. O tempo de namoro terá que levar a uma passagem do ‘amor à primeira vista’ para um amor sincero, sólido, um amor com projecto e com futuro. Palavra de Deus: “Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo, Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de lhe prepararem hospedagem. Mas não o receberam, porque ia a caminho de Jerusalém. Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os. E foram para outra povoação” (Lc 9, 51-56). “Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido.» Ao vê-la a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se. Depois, perguntou: «Onde o pusestes?» Responderam-lhe: «Senhor, vem e verás.» Então Jesus começou a chorar. Diziam os judeus: «Vede como era seu amigo” (Jo 11, 32-36). Pistas de interpretação: O primeiro texto narra-nos a hostilidade dos samaritanos para com Jesus; os discípulos querem retribuir da mesma forma mas Jesus impede-os; o mal nunca produz o bem; só o perdão é agente de mudança; Jesus ensina os seus discípulos (os cristãos) a reagir perante a dificuldade de forma positiva perdoando. Neste trecho de São Lucas estão implícitos os sentimentos de Jesus. O segundo texto narra a morte de Lázaro que causa grande sofrimento às suas irmãs Marta e Maria. Jesus vai lá confortar as suas amigas e honrar o seu amigo e comove-se, isto é, chora. Aqui Jesus manifesta claramente os seus sentimentos. Chora porque Lázaro era seu amigo. Questões: Conheço os meus sentimentos? Quais predominam na minha vida? Os meus sentimentos manifestam a minha fé? Dá alguns exemplos!
[Texto elaborado para o terceiro encontro de preparação para a Celebração do Sacramento da Confirmação - Melgaço 2010]

No silêncio de Oseira

Esta semana, o clero de Melgaço, para assinalar o Ano sacerdotal reuniu-se em ambiente de oração e reflexão na Abadia Cisterciense de Santa Maria de Oseira - Orense, Espanha.
No meio das montanhas o silêncio da cadência dos dias e das melodias dos salmos entoados pelos monges no coro alto da Igreja da Abadia.
Este lugar construído durante seis séculos (séc. XII a XVIII) e reconstruído durante oito é um livro aberto de arte em louvor do nosso Deus. As abóbadas em pedra ou os altos-relevos falam do artista e do Seu Criador.
Neste tempo pudemos reflectir sobre o texto do Papa Bento XVI para Ano Sacerdotal; frisando as dimensões do dom e do serviço que cada um de nós transporta em frágeis vasos de barro.
Durante este tempo fomos acolhidos pelos monges (12) na sua casa e participamos em alguns momentos de oração da comunidade. Num ambiente austero e acolhedor vivem os monges em clausura dedicando-se à oração e a algum trabalho manual que lhes assegura a sobrevivência. Neles vê-se uma entrega total. O irmão Luís é o que trata das visitas e dos quartos. Pequeno e sorridente a todos acolhe com simplicidade e com simpatia. Este trabalho parece adequado àquela pessoa. E é. Mas este pequeno frade é um poço de sabedoria em arte propriamente dita e na arte de servir. É formado em arte e um artista comprovado com centenas de pinturas, esculturas e outras tantas exposições. Porque anda um homem destes a tratar de quartos? Porque na humildade do trabalho reforça os laços da comunidade; depois da oração (em primeiro lugar), da limpeza dos quartos e da recepção dos hóspedes ainda encontra tempo para pintar. Na humildade e no serviço está a grandeza deste frade e de qualquer pessoa (esta foi uma grande lição há muito aprendida mas tantas vezes esquecida).

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O cozer do pão na Ameijoeira

O cozer do pão de centeio e trigo, no forno comunitário, ainda é uma realidade em Castro Laboreiro. Estes dias passava no lugar de Ameijoeira, em plena raia, quando vi o fumo a sair no forno comunitário. Parei para tirar fotografias e para conversar. As senhoras Zulmira, Angelina, Brazelina e Sara preparavam-se para cozer o pão. Estavam a cortar giestas e urzes para aquecer o forno enquanto que outras deitavam farinha e preparavam a massa em 'boroas' para ir ao forno. Pouco tempo depois já saía o 'bolo' (pequena 'boroa' que se coze antes que as outras) do qual me ofereceram e com o qual me deliciei: quente, macio e fofo ... que maravilha!
Noutros lugares (como na Ameijoeira) a tradição mantem-se e continuam a cozer o pão nos fornos comunitários de Castro Laboreiro; menos vezes, mas com o mesmo sabor e qualidade que perpassa gerações. Pena é que não seja em todos e que nem todos sejam preservados. Preservar para perpetuar a memória e a identidade de um povo.

II - Quem sou?

Para podermos responder à pergunta – ‘O que é ser cristão?’ – temos que em primeiro lugar perceber quem somos. Quem sou eu? Que sentido tem a minha vida? Importa referir, antes de mais, que não é fácil apresentar a nossa identidade pois somos seres em construção, em crescimento. No entanto, os traços fundamentais e fundacionais que nos identificam permanecem. Partir em busca da descoberta de nós próprios é um grande mistério. Muitas perspectivas podem ser apresentadas mas em sentido cristão nós somos criaturas de Deus. Criados para a liberdade e para a felicidade. A dignidade da pessoa humana radica, funda-se, no facto de ser criatura de Deus – porque todos (os humanos) somos criaturas todos temos a mesma dignidade aos olhos de Deus e aos olhos dos outros. Criados para e na liberdade; Deus não nos aprisiona mas dá-nos a possibilidade de O escolhermos ou de O negarmos; de fazermos o bem ou o mal. Na liberdade desafiados à responsabilidade para com Deus e para com a humanidade. A nossa identidade constrói-se na relação com Deus e com as outras pessoas. A noção de identidade aperfeiçoa-se e desenvolve-se na relação e na alteridade. Não existem duas pessoas iguais. Num grupo restrito ou na sociedade crescemos uns com os outros na afinidade ou na disparidade das opiniões. Na relação e no conhecimento do outro nasce o amor – ‘ninguém ama o que não conhece’. Criados por Deus para a felicidade somos homens e mulheres (masculino e feminino). Na diferenciação dos sexos construímos a nossa identidade. O nosso corpo (templo do Espírito Santo como nos diz São Paulo – 1Cor 6,19) merece-nos todo o respeito e atenção. Quanto tempo gastamos por dia a tratar do nosso corpo? (refeições, higiene, lazer, etc) O nosso corpo limita e possibilita as relações – sem corpo não fazemos nada. Por isso, como homem ou mulher tenho que conhecer, valorizar e respeitar o meu corpo, a minha sexualidade, a minha afectividade integrando tudo no projecto de Deus a meu respeito. Em síntese: visões do corpo na sociedade de hoje 1) Visão racista: despreza o outro só porque não tem a mesma cor, não é da mesma raça ou do mesmo sexo; 2) Visão comercial: dá valor somente às aparências, à beleza exterior, usando o corpo como propaganda de produtos (para vender e lucrar mais); 3) Visão produtiva: só valoriza o corpo pela sua capacidade de produção; o corpo vale enquanto produz, enquanto é fonte de aumento do capital; 4) Visão negativa: o corpo é feio e disforme logo há que o esconder; o corpo causa medo e vergonha; 5) Visão egocêntrica: o corpo é meu logo posso fazer dele o que quiser (sexo, álcool, droga); não tenho respeito por mim nem pelos outros; 6) Visão cristã: o corpo do homem e da mulher foi criado à imagem e semelhança de Deus. Não é resultado do acaso mas da vontade amorosa de Deus. O corpo dá-nos possibilidade de revelarmos a nossa identidade e a nossa dignidade. Palavra de Deus: “ «Tudo me é permitido», mas nem tudo é conveniente. «Tudo me é permitido», mas eu não me farei escravo de nada. Os alimentos são para o ventre, e o ventre para os alimentos, e Deus destruirá tanto aquele como estes. Mas o corpo não é para a impureza, mas para o Senhor, e o Senhor é para o corpo. E Deus, que ressuscitou o Senhor, há-de ressuscitar-nos também a nós, pelo seu poder. Não sabeis que os vossos corpos são membros de Cristo? Iria eu, então, tomar os membros de Cristo para fazer deles membros de uma prostituta? Por certo que não! Ou não sabeis que aquele que se junta a uma prostituta, torna-se com ela um só corpo? Pois, como diz a Escritura: Serão os dois uma só carne. Mas quem se une ao Senhor, forma com Ele um só espírito. Fugi da impureza. Qualquer outro pecado que o homem cometa é exterior ao seu corpo, mas quem se entrega à impureza, peca contra o próprio corpo. Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, porque o recebestes de Deus, e que vós já não vos pertenceis? Fostes comprados por um alto preço! Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo.” [1Cor 6,12-20] Pistas de interpretação:
Paulo contesta a doutrina dos gnósticos libertinos que defendiam que tudo quanto é corporal não interfere na vida espiritual fundamentando-se na doutrina da criação. O corpo interessa a Deus que o criou. O cristianismo está atento à materialidade e à dimensão temporal do humano. O sexo enquadra-se nesta perspectiva e destina-se à realização total da pessoa humana. Paulo escreve este texto para se opor ao culto idolátrico praticado em Corinto no templo de Afrodite em que os fiéis se uniam sexualmente à prostituta sagrada para comunicar com a divindade que ela representava. Ora os cristãos são templos do Espírito Santo e estão unidos a Cristo logo a sexo sagrado não tem sentido, pode ver-se como apostasia (negação de Deus). ‘Pecar contra o próprio corpo’ não se refere ao pecado materialmente sexual mas ao pecado de idolatria. A prostituição sagrada destruía a própria essência do ser cristão. O sexo faz parte do Projecto criador mas não pode ser visto como um brinquedo, um capricho ou uma manifestação de egoísmo mas uma abertura ao outro e um serviço à humanidade. O cristão tem que compreender o que leva à realização e ao crescimento da pessoa humana; criado por Deus para a liberdade não se deve deixar escravizar por nada nem ninguém, nem mesmo pelo próprio corpo.
Questões: O que entendes por liberdade e felicidade? Sinto que me conheço? Qual é a minha visão do corpo? Porque existem visões diferentes? Próximo encontro no dia 31 de Outubro às 21h
Texto para o II Encontro de preparação para a Celebração do Sacramento da Confirmação em Melgaço

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Nobel da Paz

O nobel da Paz foi entregue a Barack Obama "pelos seus extraordinários esforços para reforçar a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos". O mundo recebeu esta notícia com espanto (como o próprio premiado), como não pederia deixar de ser. Espanta não porque seja espantoso ou fenomenal mas porque parece algo demasiado hipócrita e desonesto. O Presidente dos Estados Unidos da América de facto encarou o mundo e a política externa americana com outro olhar, pelo menos diferente da do seu antecessor, mas daí até merecer o prémio Nobel vai uma grande distância. Obama colocou o unilateralismo americano em banho-maria mas o cozinhado continua a fazer-se. O estilo arrogante e autoritário com que enfrentam tudo e todos não desapareceu, apenas está dormente.
Agora que ganhou que encontre coragem, vontade e determinação por o merecer (como o mundo ficaria agradecido); que apresente propostas e resultados concretos de uma verdeira luta pela paz. O desarmamento nuclear poderá ser o seu campo de batalha (como afirmou o Padre Lombardi, porta-voz do Vaticano), assim o queira!
Entregue pela primeira vez em 1901, o Prémio Nobel da Paz foi idealizado pelo sueco Alfred Nobel, químico inventor da dinamite. Ele morreu em 1896, deixando a maior parte de sua fortuna dedicada à premiação de grandes feitos em diversas áreas do conhecimento.